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A mostrar mensagens de 2025

E os passos que deres,/ Nesse caminho duro/ Do futuro/ Dá-os em liberdade.

Aqui está a tradicional imagem do caminho.  De uma linha só, não asfaltado.  Divertidamente serpenteado.  Um caminho sem indicações precisas da direção a tomar.  Não se sabe ao que se vai,  sabe que se vai.  Qualquer caminho assim merece a devida homenagem. ( o título é de Miguel Torga)

mas saiu-me caro o roubo de Prometeu

Quem me dera andar por entre ruas admirando as montras só por as ver ficar-me pelo brilho das coisas concretas e não o sentido abrupto dos objetos Quem me dera andar por entre as gentes ouvindo a música, escolhendo presentes absorver apenas a  melodia, sem legendas, mas saiu-me caro o roubo de Prometeu.

except that the goal

  falls short of the reach

Nostalgia. Palavra bonita, algo triste, mas leve.

O tempo de natal é, quer se queira quer não, tempo de recordações. Há uns pozinhos no ar. E, neste caso, foi nostalgia. Palavra bonita, algo triste, mas leve. Provoca sorriso tímido e faz chegar algo doce e reconfortante.  Assim foi, ontem, num cinema. Por acaso foi num cinema bonito e em boa companhia. Foi um passar de testemunho. E recordei o meu pai que me costumava levar ao cinema. E levei a minha filha ao cinema. E recordei o meu pai que me oferecia livros que é, de resto, a melhor prenda que nos podem dar. Um desses livros, que faz parte do meu imaginário infantil, é "As meninas exemplares". De certeza que ele próprio o leu, mas mal ele sabia que haveria de me apaixonar por Sofia, a personagem mais intrincada da história, mais inquieta, mais criativa e cheia de vida. E o filme que fomos ver chama-se "As meninas exemplares" de João Botelho. E ele próprio ali estava, no meio dos espetadores, para falar connosco. Falou da vida, dos tempos modernos, do cinema que ...

é necessário que se abram, aqui ou ali, poços de luz

só quero estes passos ao som da voz que ouço e emprestarei a estas mãos a contundência necessária para viver com a novidade ( o título é de Christian Bobin)

O mundo da música é misterioso

O mundo da música é misterioso e o das folhas também. O dos campos coloridos. Principalmente quando o chão nos canta os passos. Faziam barulho os meus passos. E foi tal o chinfrim que tu me ouviste e respondeste. Eu pouco sei de anjos ou música. Mas por vezes, aparecem-me sob a forma de ramos esgaçados em tarde ensolarada. E as tardes de luz encerram um mistério e uma música deliciosos.

Se

Se fosse cisne, seria despedida Se fosse comboio, seria partida Se fosse homem de bem, falar-te-ia  como convém Se fosse sonho, adormecia Se temesse, esconder-me-ia E se enlouquecer, por favor, não queiras que pense só como te convém Se fosse lua, seria calmaria Se fosse regra, subjugar-me-ia Se fosse homem de bem, compreenderia as distâncias entre os amigos Se fosse apenas eu, choraria Se fosse eu e tu, seria alegria E se enlouquecer, por favor, deixa que entre neste jogo, novamente

olhos excessivos

a água um chafariz - e todo o mar em volta - o vento a tua face o meu nariz – e todo um fogo -  alento as flores os frutos as raízes -  e tudo inteiro  - fermento os meus olhos e os teus– e toda a paisagem cá dentro o coração uma bala vertigens – e tudo em movimento a palavra a vida  o fascínio – eis os nossos momentos

aconteceu e ninguém suspeitou de nada

há quanto tempo  temias ou ambicionavas essa descoberta de ti? esse filtro que te protege essa cor que te cobre é ouro?

e pude, deslumbrado, Saborear, enfim, O pão da minha fome

é preciso que se agigante o abismo a nossos pés a pedra dura uma manhã em que não se pode mais ou a temperatura excessiva de uma tarde um colapso, como este, tão azul noite as paisagens adversas, as trevas e os precipícios o testemunho de uma morte é preciso que percamos a razão ou a companhia é preciso que se caia do pedestal em lodo lamacento é preciso passar uma noite ao relento sentirmos a lança pontiaguda no dorso animal sentir o descompasso das  pulsações por não se achar solução  para que se perceba o poema ( o título é de Miguel Torga)

um gesto de espera do outro lado

O cão é o primeiro a sentir-te chegar mal pisas  o asfalto molhado  em direção à porta  há um ténue estalar um gesto de espera do outro lado há de concretizar-se esse encontro  tu pingado da chuva do fora que arrefece mas ele contorcendo-se  esbanjando-se em alegria genuína que enternece

e é remédio santo não afligir a aflição

deu-me para pôr a mão em vários sítios que não o peito e sentir o coração muito para além deste corpo não quis dirigir-me ao sítio certo porque enfim já sei que anda por perto a intenção mas não a ação e é remédio santo não afligir a aflição

que insiste em nós e avança alvo puro

recomeço como quem reaprendeu a nadar de bóias redondas feita corpo pequenino que cedeu e se deixa enlear pelas ondas recomeço como quem sabe de cor  palavras tidas como incertas mas faz delas uma dança e atira lá bem para trás o pior  recomeça-se sempre que se quiser não dar por terminada a criança que insiste em nós e avança alvo puro

custa perceber como és tão doce!

doce demais para mim que amas as manhãs e eu as noites tu um passarinho triste e eu um corvo que adoras as guerras e eu a paz tu que te divides por muitos e eu tão um-só que te ficas pelas metades e eu tão tudo não queiras saber de mim porque não sou flor que se cheire…

Salvámo-nos por inquietação móvel

Este texto poderia ter sido um poema. Não é. E ter começado pelas escadas de madeira. Teria sido um início inseguro pelo acesso duvidoso ao primeiro verso que faria ranger toda a estrutura final. Assim, pé ante pé e não como quem conta sílabas, avancemos devagar e deixemo-nos levar pela prosa. Poderia, neste ponto, ter-se dado lugar a uma descrição exaustiva do corrimão e da manta elaboradamente bordada que o cobria. Ou da mobília de cores que contrastava com as máscaras de ferro que cobriam as paredes. Ou dos retratos antigos e dos candeeiros reciclados cobertos de espigas de milho rei. Mas deixemo-nos de pormenores. Já cá estou no patamar superior e não foi preciso muito enredo para aqui chegar. Só vos digo que esta história cheira a um típico bar de inverno a fazer lembrar os sombrios e misteriosos pubs londrinos. Aqui há lugar para um, mais a companhia de um livro e de uma bebida quente. Há lugar para dois, bem juntinhos à lareira, a tilintar cheers to love . Há lugar para despeja...

no reino

quase nefelibata: não vivo, aprecio apenas

contamos os pingos que escorriam da calha

ontem, prolongamo-nos demoramo-nos à chuva contamos os pingos que escorriam da calha foram exatamente 1342 e nós dois sentados e, sem contar,  a braços, enrolados d e m o r a n d o  na chuva prolongados

sol de outono

O sol de outono não queima, mas recorda labaredas.

eram os olhos das árvores

Quem sabe se alguém quis que os fios do destino se cruzassem neste dia. Este fruto quase insignificante, mas com tanto significado para mim surgiu no meu caminho. Ali estava ele num qualquer passeio acabadinho de cair aos meus pés. E não foi que esta moçoila ficou toda nostálgica!?  Foi no quintal da minha avó Ana que se deu a descoberta. Lá havia uma avelaneira sem saber que o era. Na minha cabeça de criança, aqueles nódulos minúsculos que nasciam por entre folhinhas pequeninas eram os olhos das árvores. Uma dessas descobertas foi perceber que afinal aquela árvore dava fruto. E como custou perceber que aquele pequeno olho era afinal um pequeno fruto! E bom! Ainda hoje adoro avelãs.

esta beterraba bem podia

qual cor esta no balcão da minha cozinha qual vibrante cor a pulsar na minha mão porte altivo, porte terra esta beterraba bem podia ter chegado à categoria de obra d’arte disfarçada densa, carne rija, raíz talhada à minha medida força, sangue, mulher

o elefante na sala

diz querer passar despercebido diz estar farto de atenção diz sentir-se agradecido diz não gostar de exposição e não pretende mais levantar ondas não. nem sequer dar o dito por não dito está convicto. o melhor é o disfarce mas deixa a descoberto  os olhos (que é coisa óbvia) a tromba (que é coisa feia) ( Elefante na sala , Maurízio Catellan, Serralves, até janeiro 2026)

mas é – um poema de amor. há de ser sempre um poema de amor

Ainda bem que não morri de todas as vezes que quis morrer – que não saltei da ponte, nem enchi os pulsos de sangue nem me deitei à linha, lá longe. Ainda bem que não atei a corda à viga do tecto, nem comprei na farmácia, com receita fingida, uma dose de sono eterno.Ainda bem que tive medo: das facas, das alturas, mas sobretudo de não morrer completamente e ficar para aí – ainda mais perdida do que antes – a olhar sem ver.Ainda bem que o tecto foi sempre demasiado alto  e eu ridiculamente pequena para a morte. Se tivesse morrido de uma dessas vezes, não ouviria agora a tua voz a chamar-me, enquanto escrevo este poema, que pode não parecer – mas é – um poema de amor. Maria do Rosário Pedreira

um outono que surge precipitado

E realmente a praia está vazia nem um único assento indisponível... O mar a descoberto, tão escancarado! Um silêncio que insiste em demasia nada de aplausos ou apupos apenas este corpo de dias experimentado. Nada de palavras sem sentido ou sons ensaiados apenas eu e a verdade nesta hora de praia vazia. Apenas uns gestos imediatos e tão sinceros um vazio que continua a ser a minha praia num outono que surge precipitado.

o que a gente sente e não diz cresce dentro

força aquele trevo inquieto de três folhas para que sejam quatro que, sem pudor, fica com vontade de muito mais é quase copo cheio em iminente transbordar é saudade desmedida do querer ir nada temes, nada deves a não ser o desastre das tuas próprias pernas (o título é de Paulo Leminski)

alegro-me

seria um alegro-me no outro  pois a alegria entendida como um presente positivo  não requer sacrifício. Gonçalo M. Tavares

2: de quem escreve para quem lê

Se te parece ridícula esta minha tendência para a escrita, não leias. É muito simples. Pararás aqui mesmo neste ponto que se segue. Porque à terceira linha ou quarta só chega quem quer. E ao fim do texto só mesmo quem pode. Escrever é um batimento, um seguir atento, uns minutos de paz, de mesa redonda connosco próprios, uma arrumação. É uma esplanada como esta de onde escrevo mesmo agora, um cheiro a maresia, um recolher obrigatório. Não é negócio, é ócio.  Já reparaste alguma vez na sombra que se projeta na parede branca de uma tarde de verão? Já sentiste, sem protestar, a chuva miudinha que resolveu aparecer? Já atiraste uma semente à terra e esperaste vê-la aparecer por ali acima como quem se envaidece por estar a crescer?  Já evitaste pisar uma joaninha que se atravessa no teu caminho? Já sentiste alguma vez, a sério a minha mão na tua? Tudo isto eu vivo para o escrever e há que escrever tudo isto para que alguns (os mais distraídos principalmente) não se sintam ridículos ...

il giorno in cui uscì il sole

e neste dia nascia o dia tão diferente e eu crescia tão alto corpo rendido pelo fulgor da manhã e neste dia surgia o sol tão diferente tão perto e tanta luz e ía nas nuvens bem no meio delas contigo

Em todos os casos, vai crescendo o enigma.

Vou sentada adivinhando as histórias que cada um encerrará dentro do seu peito, do que os lábios nunca disseram, mas que os olhos deixam escapar. Um mínimo que se exalta por vezes faz-nos exaltar o mínimo em nós que reparamos nele. E agora mesmo me presto eu a este ensaio de adivinhação para o outro que se fixou em mim. E quase que adivinho que vai sentado, procurando também nos meus olhos o que deixo escapar. É esta a humanidade – a capacidade de nos olharmos uns aos outros, cada um com a luz que desenha a sua sombra. Em todos os casos, vai crescendo o enigma. 

prolongo-me

chego ao mar não em morada mas em possibilidade de começo peço licença ao entrar. entro devagar. gosto de hesitar primeiro preparo-me no átrio e respiro prolongo-me como quem ainda não descobriu

É um início perene, nunca uma chegada seja ao que for.

Somos um todo, não há volta a dar. Por muito que digam que a humanidade está em crise e que tendemos para o isolamento, há uma ainda força gigantesca e misteriosa que nos compele uns para os outros. É essa força que se sente quando se está no meio da multidão. Quando o povo se junta em torno da mesma música, da mesma palavra, do mesmo protesto. Uma onda de corações que se unem. E como arrepia esse esforço comum! Uma espécie de reunião de nomes no mesmo sítio à mesma hora. Um uníssono respirar, a morte certa de todos nós aliviada por um momento de paz ou conforto ou consciência de que afinal somos todos feitos do mesmo. É na linguagem, seja ela feita de palavras, sons, gestos, que a experiência se torna concreta e percebemos que há um mesmo viver que nos une. Os mesmos problemas e alegrias, ansiedades e desejos. Uma comunicação consequente. De repente, naquele instante, as pessoas chamadas ao mesmo lugar vivem a mesma linguagem, não a intelectualizada, mas a linguagem na sua função comu...

dançamos juntos

  o vento aceito das praias que piso esse insubordinado que admiro que primeiro surge suave e enleia depois mais afoito fustiga para ele é jogo que sabe convida-me e às areias que revolve e dançamos juntos um baile que pouco dura mas que alça e insiste e não corrompe

Para todos há pão, salvo para a maioria das pessoas.

A maioria das pessoas viaja na coberta dos navios na terceira classe dos comboios a pé pelas estradas… A maioria das pessoas. A maioria das pessoas começa a trabalhar aos oito anos casa aos vinte morre aos quarenta. A maioria das pessoas. Para todos há pão, salvo para a maioria das pessoas. arroz também açúcar também roupas também livros também Há para todos, salvo para a maioria das pessoas. Não há sombra na terra para a maioria das pessoas não há candeeiros nas ruas não há vidros nas janelas. Mas a maioria das pessoas tem a esperança. Não se pode viver sem esperança. Nâzim Hikmet (Poeta turco)

ABC do verão

A rapariguinha do Norte Bebe uma seven-up fresquinha Com rodela de limão Deixa o trabalho de lado Estende-se ao comprido Fica de perna cruzada Gosta de tudo o que é água Há música no coração! Imagina ilhas paradisíacas Janta todos os dias na varanda Liga aos amigos e parentes Marca encontros na esplanada Nada na piscina do Clemente Ouve os grilos no prado Pinta a macaca! Que gosto! Que satisfação! Rega as plantas do jardim Seca os cabelos ao vento Traz chinelos nos pés Ui! Que maravilha! Vai de mala aviada e diz Xau! que se faz tarde, Zarpar é o caminho!

desde o primeiro segundo uma vida

quando deixar de escrever versos inocentes, inúteis, dos que nem aquecem nem arrefecem como estes que te escrevo neste momento quando deixar de falar dos ridículos barquinhos de pesca que atracam  ou das gaivotas que em bandos se agitam quando deixar de reparar nas pedrinhas e minhocas e noutros elementos fundamentais quando preferir os versos intelectuais contados dedo a dedo perfeitos e acentuados na sexta e na décima silabas, rigorosamente já estará o caso mal parado e, aí sim, peço toda a tua atenção  porque será caso para preocupações 

e de todos os que mais guardamos

e de todos os sítios, os mais bonitos são aqueles bons de ver aos pares dos que se colhem em flores à beira da estrada e se guardam sinais de nos termos sentado numa pedrinha quente e de pés molhados como quem tirou o dia só para estar e não pensar em  mais nada

silêncio concertado

É andar de mãos dadas sem dizer nada Respirando apenas e centrando a atenção naquele par de mãos  que se acharam e acharão  entrelaçadas 

Queda

Subiu como quem sobe para cuidar com um regador na mão - o dia a brilhar. No topo do prédio, um jardim suspenso, um céu de cimento, um silêncio imenso. Entre vasos e folhas, não viu o sinal A curva do acaso, o gesto fatal. Pisou – sem saber – numa casca traidora O chão fugiu-lhe e a vida. Caiu. Caiu como caem os segredos no escuro Como caem as certezas no abismo mais duro. O vento a gritar o nome que já foi… Mas não! No meio do nada como se uma parede surgisse Como se o próprio destino intercedesse e ouvisse Ali, um brilho, memórias sem som: a infância, os risos, o tempo que é bom. Marcado por um contador Mostrou-lhe a vida: o amor e a dor: o primeiro choro, os passos, os erros, os olhos da mãe, os gestos sinceros. Compreendeu! Não era só um fim. Era o espelho da estrada. O instante em que a alma é pesada! Sem luta. Sem raiva. Nem um grito. Sorria no vazio. Era bonito. Aceitou. ( mais um trabalho de escrita criativa a partir de um pequeno filme da autoria de Iara Oliveira, 9ºC)

um mar de roupa

Que tal começar por uma personagem? Quero que se chame Renato. E quero que ajude o seu pai Alfredo a arrumar uma mala. Mas não será uma mala qualquer. Quero uma mala onde as coisas entrem sozinhas e se dobrem por si só e onde os cintos se mexam como serpentes. Não quero que a mala seja de viagem, das paradisíacas. Quero algo mais triste e sério, do género partida em trabalho. Quero uma família que não seja normal. Quero algo mais criativo e diferente. Quero estranhos que morem numa cidade pequena com um carro pequeno e velho. Mas quero uma mala. Uma mala que simbolize um momento. De pai para filho. Quero uma despedida. Esta mala abrir-se-á em ferida. Uma ferida em estrada. Quero também um mar de roupa que simbolize a confusão. Quero um pai que falecerá e deixará a família triste. Um pai que só pensou em trabalho para dar uma vida melhor ao Renato. (texto de Neuza Ferreira, aluna de 9º ano, desafio de escrita criativa lançado a partir do pequeno vídeo que acompanha este texto)

e nem por isso deu descanso

o domingo é, em última instância, uma desgraça principalmente depois das seis da tarde porque há um silêncio por todo o lado e nem por isso deu descanso parece que soa a nada ou a tudo o que não se quis ou que não se aproveitou ou que não se fez o domingo é, por excelência, uma indefinição tem o peso do dever à espreita, mas chamam-lhe dia de folga parece o fim de uma primeira temporada e pode muito bem ser só isto

ouve como range

ouve como range a porta           que não se fecha exibe o trinco aldrabado           que ninguém mais ousa almeja ser reserva de chegada     e murmura assim entre dentes        como quem quer e não quer o que é ser dentro ou ser fora                já nem sabe

E eu sei disto. Sei muito bem do que falo.

Quero falar-te no abraço de mãe.  Dura muito. Uma vida inteira. E vai-se moldando  em função do tamanho de um filho.  E o filho cresce e cresce e a mãe vai esticando os braços. Muito, muito.  Exageradamente abertos, sempre prontos a acolher.  O abraço de mãe não esgota, não se esgota. E eu sei disto. Sei muito bem do que falo.

primeiro, respira, depois, repara

Primeiro, respira. Nem que seja com a parte do pulmão que ainda acredita. Depois, repara: - o mundo não acaba. Nunca acaba. E a vida, essa sem-vergonha que se reinventa ensina-te que amarás de novo. Talvez de forma mais tímida Ou com o exagero dos que já perderam tudo. (Andrea Fernandes)

Não concluas que é sempre fria a água do balde.

Não suponhas que as formas nascem do olhar. Não questiones a razão da tua cor. Não te impressiones com muros iluminados. Não te esqueças que não há gritos com respostas. Não queiras quem caminhe ao teu lado indiferente. E nunca tentes emendar o que não tem conserto. Nunca leias um livro único uma única vez. Não tentes aprender equações repetindo. Nunca te arrependas do relâmpago duns lábios procurando outros lábios. E nunca pretendas decifrar mistérios. Não batas a nenhuma porta para matar a tua sede. Nem mates os anjos com beijos revoltados. Não duvides da inevitável solidão do tempo. Não leves tão a sério o desejo. E nunca esperes por uma palavra – di-la! Não concluas que é sempre fria a água do balde.

Guardo a rua que se afasta

Guardo a rua que se afasta e as pétalas que se agigantam quando semicerro o olhar Daqui deste alpendre, arranco pensamentos desta cadeira onde me baloiço na quase-noite  Há lírios matizados no peitoril da janela quebrada e azulejos perfeitamente desenhados A luz tremelica dentro do cubículo vejo-a cá de fora.  Guardo o grito que fere o entardecer  o rouco ladrar que estala ao longe  o último pio dum pássaro  que atenta em zig-zag o gato esquivo  Guardo a aranha que teia  o escaravelho que salta a escada  e a escada que conduz à poeira  que a chuva já amainou.  Guardo a púrpura tarde!  Há cheiro a buganvílias e jacintos uma tarde vaporizada… O chão está quente – dizem-no os meus pés descalços O vento suave – dizem-no os meus cabelos parados Daqui deste alpendre guardo o meu olhar que se estende para lá, muito para lá da tarde Respiro e guardo A paz que desce da espinha aos pés.

mas parte integrante do todo

Com a idade têm as madrugadas outro sabor são início de caminho para muito mais Com a idade aprendemos a encher o peito de ar como quem devora e gosta de aqui estar Com a idade ficam as coisas mais pequenas colam-se-nos à pele, arranjam morada E à medida que o tempo passa, mais o mar insiste Conseguimos desenhá-lo à sombra do que somos à luz do que queremos e amamos e somos quase sempre muito pouco comparados uma partícula minúscula perante a grandeza do que nos rodeia mas parte integrante do todo

foste tu quem me fez parar a meio

foste tu quem me fez parar a meio fiquei estanque mesmo a meio da rua a deter-me como que por feitiço  num pedaço de tronco a vê-lo ver para além do tronco as folhas, as flores ainda por nascer e agora eu própria cheiro a rosmaninho ou alecrim é algo que me deposita, ondula, fala por mim

umas empreendedoras madrugadeiras de asa preta

Nestes últimos tempos tenho acordado muito cedo, muito antes do cantar dos pássaros. Vou com um olho aberto, outro fechado, cabeleira em sobressalto e pijama em desalinho em direção à janela. Abro-a sorrateiramente e apanho-os, normalmente, sem pio.  Mas, hoje… sou surpreendida por umas empreendedoras madrugadeiras de asa preta. Nem imaginam quanto chilrear há neste alpendre! Mesmo aqui, no canto superior direito desta varanda do segundo esquerdo, descubro um ninho de andorinhas! E nada estão preocupadas com a barulheira que me espanta. Lá andam na sua azáfama, entrando e saindo dos ninhos em execução, desenfreadas e em grande alarido como quem prepara uma festa. Três ternurentas bolinhas pretas sobrevoando o meu pátio e vão chamando outras numa alegria tal que nem dão por mim. E assim me conseguem convencer de que vale a pena começar o dia a sorrir e encará-lo como dia de festa. Aos primeiros, embora tímidos, raios de sol, fico completamente rendida a esta luz que alimenta este ba...

o meu amor perfeito

hoje, o meu amor, pelos comboios obrigou-me a ir bem cedo  e fui hoje, o meu amor, mal lá cheguei acolheu-me e confidenciou-me cantam os pássaros quando vens fica o dia mais bonito quando ficas e sentes-te bem quando estou aqui também

trabalho árduo

O que me sustenta não é o trabalho árduo nem a papelada nem os sérios problemas da humanidade! O que me sustém é esta necessidade de não fazer nada! E ter a coragem de o dizer quando todos parecem tão atarefados! E andar por aí! Como quem respira. Como quem doma a cor, a temperatura, as texturas. Como quem adora as coisas vãs que não interessam a ninguém. E como é difícil convencer os demais que sou feliz assim…

mãe, para ti, são apenas os dias simulados

Neste sítio que não sabes onde nem quando nem porquê és a que já não pode ter nem estar e a quem nem vale ao menos o orgulho de poder supor que é. Cá fora, à tua volta, o mundo continua: o dia desponta, ora faz chuva ora faz sol fogem-nos os minutos neste dia-a- dia atarefado mas, para ti, são apenas dias simulados. Esta vida tão exata, tão calculada a régua e esquadro tão importante, tão cheia de números e nomes não passa, para ti, de um mundo efémero e imaterial.

Porque qualquer coisa se aligeira em nós. E aceita tudo mais nitidamente.

Já te conto, se quiseres ouvir quantas flores eu colhi nos anos da minha infância. Levava na altura um cesto que enchia de flores amarelas as do campo que mal prestam mas cujo aroma só delas enchia uma casa inteira. E, de súbito, o sol, só de as lembrar agora, banha este pátio de luz. ( o título é de Alberto Caeiro)

A Paz!... esse conceito abstrato

Fazer as pazes é termo bom e mais, muito mais, do que fazer a Paz A Paz!... esse conceito abstrato mas que só se concretiza quando em mim e em ti quando inicia por o que está mais à nossa mão. A minha paz, a tua paz, fazer as pazes feitas assim uma da outra

o que fomos e o que somos

Cada vez mais extremos disto e daquilo.  Ou se está pateticamente feliz ou exageradamente deprimido. Ou se está morto de cansaço pelo trabalho excessivo. Ou parados num tempo inútil. Ou nos (des) encontramos ou nos isolamos.  Ou vivemos no caos ou vivemos na exímia ordem.  Já não há lugar nem paciência. Ou é oito ou oitenta. Parece que só ambicionamos o excesso, a estrutura. Vivemos atafulhados de estatutos e de planos cumpridos ou por cumprir.  Idolatramos os pés bem assentes no chão, os horários certos. Ambicionamos a confiança, o definitivo, mas vivemos de pé atrás. Queremos ser os lugares certos, mas atormentados pelo desejo. Viramos o rosto para o chão com medo de pisarmos as nuvens.  Temos receio do novo, da doença, dos fins e do bicho papão. Invade-nos a apatia, o desconsolo, subsistem as horas incompletas.  Somos cada vez mais chumbo ou ferro ou dor. E menos flor, fogo, ar ou luz.  Somos cada vez mais almoços atrapalhados e relações de circunst...

nada realmente está perdido

Sozinhas ou acompanhadas.  Riem, choram, disparatam, fazem crochet. Cuidam-se e cuidam, compõem as flores nas jarras e as jarras na mesa e saem para comprar hortaliças, ouvem música e dançam.  Bebem chá e mexericam com as amigas ou vizinhas.  E mesmo que, com a idade, fiquem malucas O lema sempre será agitar.  Os homens nunca perceberão o que as mulheres podem.

mas o mar continua colado ao vidro da minha alma, embaciando o que escrevo com o seu ritmo matinal

 Ir até ao mar por becos e ruas por asfaltar seguir em frente e anotar quase todos os números das portas para ver que o que a conta dá. Virar à direita conforme dita o trajeto mais longo e continuar. E lá ao fundo, por entre duas paredes brancas três árvores vergadas. Daquelas que se acendem à primeira luz, mesmo em dias de tempestade. E é neste preciso momento que o antevês. Estás quase lá. É continuar. Segues em frente, divides a larga estrada em duas. Avanças. Abre-se o peito. E lá está o mar. Imperioso! É este caminhar para ti que me faz andar. ( o título é de Nuno Júdice)

ser mais

ser mais um dia para poder conseguir mais uma vez repetir  se preciso for gostar, sorrir encarar cada fim como um início outra vez

cidades

corremos nelas ou elas em nós? são os nossos olhos que rasgam a noite? ou é a noite qual onda que nos atravessa subitamente?

para que nos lembremos

Simões de Almeida aproveitou-lhe a cabeça e descobriu-lhe os ombros.  E perguntou à menina de sua mãe se a podia esculpir em nome da pátria.  A mãe concordou desde que a resguardassem. (mal ela sabia que a res publica vai tão maltratada... ) A rapariga chamada Hilda Puga (dizem, alguns, alentejana de gema) viveu 101 anos de forma brava e decidida enfrentou as mazelas necessárias para que se fizesse à vida e ainda hoje teima em aparecer, de quando em vez, para que nos lembremos que isto não pode ser a república das bananas.

E pesado, assim, ando inclinado como uma árvore

 Perguntei -lhe:  - O que guardas? E respondeu: o que me atormenta e o que atordoa o que atenta e me alenta, o que soa o que me fascina e o que ensina o que me levanta e o que ressoa em mim vives e vibras e ficas com o mais comovente como a alegria, pura e espontânea, o mais subtil como a atenção e a partilha, e o mais precioso como a companhia a tua mão, a tua mão  eu que sou poema guardo em mim,  há o sal e a água mais aquilo que se esgota há também o sol e o pão  mais o caminho que se gosta

a fazer lembrar o ofício de um dia por inteiro

não me apetece clara nem lavada indumentária nem sequer um outfit pensado quero uma ganga escura, esfiapada pelo uso a fazer lembrar o ofício de um dia por inteiro uma espécie de macacão que me cubra da cabeça aos pés a medir-me de alto a baixo tecido rijo que me proteja dia a dia do que insiste e subsiste e que aos poucos vá virando pele e seja a minha imagem de marca do que me arquiteta lua a lua, sol a sol

e não foi música má não – a do mar

não é música má não - a do mar principalmente quando a onda te bate no pé convidando à dança ensinando-te o vai e vem de tudo libertando-te pelo respirar veste-te e despe-te num ápice mas não é música má a do mar hoje foi assim o meu passeio contigo no meu pensamento e não foi música má não – a do mar

um buraco mais largo e mais fundo

Ainda não é bem o fim do mundo isto é apenas uns filhos da puta a abrir um buraco mais largo e mais fundo. José Carlos Barros