Hoje, apeteceu-me uma daquelas fotos instagramáveis. A chamada selfie para comemorar a solidão dos nossos tempos. Podia ter sido uma fotografia a cores, mas achei que o preto e branco é muito mais elegante e permite esconder as (poucas) rugas que se desenham nalguns pontos do rosto. Poderia ter tirado os óculos, mas pensei que assim ficava mais cool, vaporizando-vos com um certo cheiro a verão. Sei que poderia ser um retrato de corpo inteiro, mas isso obrigaria a uma ginástica laboriosa, colocando o dito telemóvel no ponto exato, no ângulo certo de forma a corrigir os pontos fracos e enaltecer os pontos fortes e não há pachorra nem ciência para tais cálculos. Sei que podia ter jogado uma última cartada como a de um cenário idílico, desses de criar inveja miudinha a alguns… mas pensei que... por hoje, já chega.
Sou a que sabe que é primavera quando sou chamada a entrar em cena. Sou ali colocada num ponto - chave e sou convidada a ver a marcha do mundo. Sou dada à luz e exposta a perfumes. Sou farol, sou plateia, sou posto de controlo. Ganho braços e pernas e ouço os sons de tudo. Sou assento. Sou centro de paz. Tenho-a por minha companhia - aí vem ela, aí vem ela, só ela me cabe! Vem como água que se infiltra. Vem como hera que se enlaça. Vem com alegria. E instala-se.