Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

Só preciso de me defender de palavras turvas.

Naquele tempo  eram altas as cadeiras do dentista Naquele tempo tão altas e intensa a dor e eu tão petiz Naquele tempo arrancava-se o mal pela raíz Naquele tempo era a dor feroz mas breve ( título é de Luís Filipe Parrado)
Mensagens recentes

a lentidão

No nosso mundo, a ociosidade transformou-se em desocupação,  o que é uma coisa muitíssimo diferente:  o desocupado sente-se frustrado, aborrece-se, procura constantemente o movimento que lhe faz falta. Milan Kundera, A lentidão

um pingo de desconsolo

 contra o que queria e não tinha contra o que ambicionava e nunca chegava contra o que não sabia e gostaria de saber contra quem eu pretendia e não me procurava uma perseguição em infindável afã do que não era para ser uma luta demasiadamente inglória para ter vida longa é evidente haver aqui  um pingo de desconsolo uma rendição, um alívio  um descanso, um equilíbrio  uma alegria,  por fim.

e o raio da nau ganha raízes

fomos fugindo um do outro fomos fugindo de todos fomos fugindo de nós próprios  até ficarmos sozinhos  agarrados aos mortos e ao que já passou... não nos demos ao trabalho de arranjarmos um da nossa espécie  temos, agora,  como única bandeira uma insignificante folhita de oliveira  que nos priva de quase tudo de avançar, por exemplo, não aprendemos a nadar e temos um dilúvio cá dentro e o raio da nau ganha raízes –  das profundas com braços de torga - que nos devora o cérebro e nos impede de ver o óbvio

o ar entra na gente a luz e tudo

assim com ânimo como quem recorta um quadrado eu própria – parede abri-me – janela os olhos em espanto a boca escancarada os braços – portadas brancas e lisinhas o ar entra na gente a luz e tudo enche-nos o peito de vontades

vagabundos

só que a voz e, sobretudo,  a cabeça e os pés, estão em trabalho temporário optaram por atalhos e artifícios vários anda errante, mas ileso, sem pensar muito em itinerários 

por hoje, já chega

Hoje, apeteceu-me uma daquelas fotos instagramáveis. A chamada selfie para comemorar a solidão dos nossos tempos. Podia ter sido uma fotografia a cores, mas achei que o preto e branco é muito mais elegante e permite esconder as (poucas) rugas que se desenham nalguns pontos do rosto. Poderia ter tirado os óculos, mas pensei que assim ficava mais cool, vaporizando-vos com um certo cheiro a verão. Sei que poderia ser um retrato de corpo inteiro, mas isso obrigaria a uma ginástica laboriosa, colocando o dito telemóvel no ponto exato, no ângulo certo de forma a corrigir os pontos fracos e enaltecer os pontos fortes e não há pachorra nem ciência para tais cálculos. Sei que podia ter jogado uma última cartada como a de um cenário idílico, desses de criar inveja miudinha a alguns… mas pensei que...  por hoje, já chega.

Assento portátil e dobrável projetado para uso em ambientes leves

Sou a que sabe que é primavera quando sou chamada a entrar em cena. Sou ali colocada num ponto - chave e sou convidada a ver a marcha do mundo. Sou dada à luz e exposta a perfumes.  Sou farol, sou plateia, sou posto de controlo. Ganho braços e pernas e ouço os sons de tudo.  Sou assento. Sou centro de paz. Tenho-a por minha companhia  - aí vem ela, aí vem ela, só ela me cabe! Vem como água que se infiltra. Vem como hera que se enlaça.  Vem com alegria. E instala-se.

esta mão que escreve e sente vai dizer Poesia/ como se fosse alimento que sacia e deixa semente

Tem sido local de encontro. E há um grupo de pessoas que naturalmente se procuram em nome da Poesia. Todas as quartas feiras, às vezes sábados, há um caminho certo. Leva-se connosco a palavra, aprende-se e escolhe-se a forma de a dizer. A palavra aproxima e ganha corpo nas vozes que a sentem e a deposita em cada movimento. E aos poucos, vai surgindo muito mais que o texto. Surge a amizade entre aqueles que a vivem. Surge a cumplicidade e a partilha. O palco ganha luz e som. Surge a magia entre aqueles que a partilham e aqueles que a acolhem. (um agradecimento à Biblioteca Municipal de Matosinhos, ao Exemplo Extremo, à Ana Celeste Ferreira, ao Isaque Ferreira, ao Alfredo, à Isabel, ao Jorge, à Marlene, à Eugénia, ao Pedro, ao Laboratório Boca em Flor, à Carla Tavares que, ontem, esteve magnífica, ao Rui Coutinho, com a sua voz retumbante…obrigada pelos momentos mágicos que me têm proporcionado e pela Poesia dos dias)