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Mensagens

esta mão que escreve e sente vai dizer Poesia/ como se fosse alimento que sacia e deixa semente

Tem sido local de encontro. E há um grupo de pessoas que naturalmente se procuram em nome da Poesia. Todas as quartas feiras, às vezes sábados, há um caminho certo. Leva-se connosco a palavra, aprende-se e escolhe-se a forma de a dizer. A palavra aproxima e ganha corpo nas vozes que a sentem e a deposita em cada movimento. E aos poucos, vai surgindo muito mais que o texto. Surge a amizade entre aqueles que a vivem. Surge a cumplicidade e a partilha. O palco ganha luz e som. Surge a magia entre aqueles que a partilham e aqueles que a acolhem. (um agradecimento à Biblioteca Municipal de Matosinhos, ao Exemplo Extremo, à Ana Celeste Ferreira, ao Isaque Ferreira, ao Alfredo, à Isabel, ao Jorge, à Marlene, à Eugénia, ao Pedro, ao Laboratório Boca em Flor, à Carla Tavares que, ontem, esteve magnífica, ao Rui Coutinho, com a sua voz retumbante…obrigada pelos momentos mágicos que me têm proporcionado e pela Poesia dos dias)

just a perfect day

digo-te coisas novas com a língua coisas que voam e são vermelhas ou azuis ou quentes ou com as mãos que te apanham em branco e com espanto digo-te coisas que vivem por dentro de nós  quando dançamos

Um brinde às otárias, totós e trouxas

Dizem que com a experiência se aprende. Pois...dizem. Cá para mim, sou seguidora teimosa do "otaritarismo", "tótóísmo", "trouxismo". Passo a, tentar, contextualizar. "Tem calma!" "Não vale a pena chateares-te!" "Ninguém muda nada!" "Deixa lá!" "Pára de refilar, reclamar!" "Sei que tens razão, mas..." "De que adianta andares com essas coisas?" ...ou seja, cala, come e vegeta...ou então, não ouças, não vejas, não comentes. É aqui que sou seguidora da "trilogia do bobo", porque, certamente com as melhores das intenções, te advertem de que não és ninguém e que, por mais que reivindiques aquilo que consideras justo, são causas perdidas, impossíveis de superar. O.K., podemos equacionar o que consideramos justo. A nossa humanidade assenta em parâmetros que, filosofica e supostamente, nos distinguem no reino animal, vulgo, conhecidos e apregoados como valores, virtudes e afins. A prior...

e vou curtindo o sol enquanto dura

acima de mim milhões de cabeças neste chão um desenho de artérias trago o corpo cheio de sinais e vou curtindo o sol enquanto dura

1840

 Lançou-se              em diagonal                                   direto.                                           Alojou-se                                                         no meu ombro                                                                                 direito.

encontro

Lembrei-me como era urgente marcar um encontro comigo mesma, naquele sítio bonito que só eu mereço, escolhido de facto, sem que nenhuma das ocorrências da vida venha interferir na minha forma de respirar sei que é irremediável o que, em certo ponto da vida,  temos para dizer a nós próprios na sua forma mais pura e bela a confissão mais exata, mas também a mais absurda e profunda. ( ligeiro desviar do remetente na carta esboço de Nuno Júdice)

para olhar e ver e para ser vista

Não tenhas receio de admitir que aprecias.  Até porque há que exercer os sentidos enquanto sentem.  E o que é bonito é para se ver.  Esta é a tua cena.  Não por ser cor de rosa nem por ter flores no seu peitoril  mas por estar a sorrir para quem passa na rua.  Não indiferente, mas com uma predisposição inata para olhar e ver e para ser vista.  Surge flagrante, de pálpebra semi cerrada.  Eficaz na forma como te alcança. 

forma orquestral

A manhã que quer ser  primavera à força no coração do inverno com seus lençóis brancos estilhaçados pelas ondas nas rochas liberta-se em furor  e, de forma orquestral, confunde-me é espuma e fogueira ao mesmo tempo Irrompo em palmas nesta varanda de onde vislumbra o meu coração todo este cenário em primeira mão.

esta mesa pode ser reino

aos corpos que se inclinam aos olhos nos olhos uma disposição, uma sede às palavras que se partilham que são pão para a nossa boca esta  mesa pode ser reino mas não é para qualquer um porque há uma exigência aqui que é tempo de qualidade ter paciência para ouvir ter coragem para estar e sentir

a certeza dos minutos programados.

Andamos presos ao hábito.  Traçamos de manhã à noite trajetos certos e fáceis,  daqueles de serem feitos de olhos fechados.  Calhou-nos em sorte um sítio, um clã, um nome e reinamos, dando ares de estabilidade,  marionetas de vidas perfeitas, impecáveis,  com horas para tudo.  Damos pouco,  almejamos quase nada  e recebemos em apatia a certeza dos minutos programados. 

bípede sem plumas

Dai-me um espaço amplo onde se concretize o trânsito. Dai-me o caos para que se crie. Um excesso de matéria estagnada onde a mudança germine.

e um sol poente; uma neve branca/ e uma água cristalina a seguir

a realidade é como é e nem sempre é grande coisa se não for a nossa capacidade de a melhorar ( o título é de Alejandro Simón Partal)

três de uma tarde molhada

esmagar uma erva entre as mãos faz subir um cheiro encantado experimenta: ervas de cheiro, um cuidado o tomilho, o alecrim, o manjericão a cidreira, a hortelã, a lavanda nem sei se é tacto se visão  se de olfacto se trata se sabor ou isto tudo misturado

horárias, intensas ou vagas

horárias, intensas ou vagas dadas as razões mais difusas um susto que nos afasta o sentido o que não se sente ou se sente demasiado um lusco-fusco por vezes ou claridade o útil tão próximo às vezes quase nada são as razões tantas que nos encobrem edificações interiores que vão martelando matéria estanque  - e no entanto –  correm nas veias, macerando-nos  a carne

não é este o mar que eu canto oh! como está triste o areal

já foste leito, divã, berço de embalar, lençol de seda príncipe no reino das manhãs, convite à entrada já foste palco de serenidade espalhando maresia uma bebedeira de azul , luz na minha pele mas, hoje, encontrei-te num enjoo brutal cuspiste, abriste a goela,  verteste o vómito desenfreado escancaraste neste areal todas as provas do meu, do nosso crime que já não consegues mais esconder, estás farto de sofrer

(cumprindo a lei da inevitabilidade)

Da vidraça, pensava eu, que ambos assistíamos ao aleatório deslizar de umas quantas gotículas. (cumprindo a lei da gravidade) Foi então que disseste: - Tens uns olhos…! Nessa hora percebi que enquanto os teus fixavam os meus, andavam os meus alheados.  Foi assim que os nossos olhos entraram em rota de colisão e desenhamos carreiros incertos pela janela abaixo. (cumprindo a lei da inevitabilidade) Estava o chá quente e o colo. È que nem sempre os dias são tristes. Às vezes, são só frios à espera de algo que os aqueça.

e, hoje, no entanto, amanheceram pássaros trinando…

andam pardacentos os dias são cavalos indomáveis os rios choram as árvores e tudo à volta e, hoje, no  entanto,  amanheceram pássaros trinando… subitamente, o riso, a alegria dos moços brincando...

escuta as vozes longínquas de crianças, o ruído de um motor que passa na estrada, o silêncio que isso envolve e que fica

são nossos todos os lugares quando sentidos nem que seja breve instante um fundo respirar de chão um leve olhar de ave como quem diz «também faço parte» basta  corpo a atravessar um coração a pulsar para que o espaço leve com a tua assinatura

E porque é que não nos podemos movimentar no Tempo como nos movimentamos nas outras dimensões do Espaço?

eu mais à frente já não tanto passado mas presente com visões de esperança acolhendo quem se lembra sempre esta é a única viagem possível no tempo ( o título é um excerto do livro « a máquina do tempo» de H.G. Wells)

Com arriscada atenção aspiramos à ditosa notícia de uma perfeição especialista em fracassos

a que era quem mal sabia contar a que confundia patos com perdizes do mar a que andava sempre ao deus dará (o título é de Ana Hatherly)