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Mensagens

a lentidão

No nosso mundo, a ociosidade transformou-se em desocupação,  o que é uma coisa muitíssimo diferente:  o desocupado sente-se frustrado, aborrece-se, procura constantemente o movimento que lhe faz falta. Milan Kundera, A lentidão

um pingo de desconsolo

 contra o que queria e não tinha contra o que ambicionava e nunca chegava contra o que não sabia e gostaria de saber contra quem eu pretendia e não me procurava uma perseguição em infindável afã do que não era para ser uma luta demasiadamente inglória para ter vida longa é evidente haver aqui  um pingo de desconsolo uma rendição, um alívio  um descanso, um equilíbrio  uma alegria,  por fim.

e o raio da nau ganha raízes

fomos fugindo um do outro fomos fugindo de todos fomos fugindo de nós próprios  até ficarmos sozinhos  agarrados aos mortos e ao que já passou... não nos demos ao trabalho de arranjarmos um da nossa espécie  temos, agora,  como única bandeira uma insignificante folhita de oliveira  que nos priva de quase tudo de avançar, por exemplo, não aprendemos a nadar e temos um dilúvio cá dentro e o raio da nau ganha raízes –  das profundas com braços de torga - que nos devora o cérebro e nos impede de ver o óbvio

o ar entra na gente a luz e tudo

assim com ânimo como quem recorta um quadrado eu própria – parede abri-me – janela os olhos em espanto a boca escancarada os braços – portadas brancas e lisinhas o ar entra na gente a luz e tudo enche-nos o peito de vontades

vagabundos

só que a voz e, sobretudo,  a cabeça e os pés, estão em trabalho temporário optaram por atalhos e artifícios vários anda errante, mas ileso, sem pensar muito em itinerários 

por hoje, já chega

Hoje, apeteceu-me uma daquelas fotos instagramáveis. A chamada selfie para comemorar a solidão dos nossos tempos. Podia ter sido uma fotografia a cores, mas achei que o preto e branco é muito mais elegante e permite esconder as (poucas) rugas que se desenham nalguns pontos do rosto. Poderia ter tirado os óculos, mas pensei que assim ficava mais cool, vaporizando-vos com um certo cheiro a verão. Sei que poderia ser um retrato de corpo inteiro, mas isso obrigaria a uma ginástica laboriosa, colocando o dito telemóvel no ponto exato, no ângulo certo de forma a corrigir os pontos fracos e enaltecer os pontos fortes e não há pachorra nem ciência para tais cálculos. Sei que podia ter jogado uma última cartada como a de um cenário idílico, desses de criar inveja miudinha a alguns… mas pensei que...  por hoje, já chega.

Assento portátil e dobrável projetado para uso em ambientes leves

Sou a que sabe que é primavera quando sou chamada a entrar em cena. Sou ali colocada num ponto - chave e sou convidada a ver a marcha do mundo. Sou dada à luz e exposta a perfumes.  Sou farol, sou plateia, sou posto de controlo. Ganho braços e pernas e ouço os sons de tudo.  Sou assento. Sou centro de paz. Tenho-a por minha companhia  - aí vem ela, aí vem ela, só ela me cabe! Vem como água que se infiltra. Vem como hera que se enlaça.  Vem com alegria. E instala-se.

esta mão que escreve e sente vai dizer Poesia/ como se fosse alimento que sacia e deixa semente

Tem sido local de encontro. E há um grupo de pessoas que naturalmente se procuram em nome da Poesia. Todas as quartas feiras, às vezes sábados, há um caminho certo. Leva-se connosco a palavra, aprende-se e escolhe-se a forma de a dizer. A palavra aproxima e ganha corpo nas vozes que a sentem e a deposita em cada movimento. E aos poucos, vai surgindo muito mais que o texto. Surge a amizade entre aqueles que a vivem. Surge a cumplicidade e a partilha. O palco ganha luz e som. Surge a magia entre aqueles que a partilham e aqueles que a acolhem. (um agradecimento à Biblioteca Municipal de Matosinhos, ao Exemplo Extremo, à Ana Celeste Ferreira, ao Isaque Ferreira, ao Alfredo, à Isabel, ao Jorge, à Marlene, à Eugénia, ao Pedro, ao Laboratório Boca em Flor, à Carla Tavares que, ontem, esteve magnífica, ao Rui Coutinho, com a sua voz retumbante…obrigada pelos momentos mágicos que me têm proporcionado e pela Poesia dos dias)

just a perfect day

digo-te coisas novas com a língua coisas que voam e são vermelhas ou azuis ou quentes ou com as mãos que te apanham em branco e com espanto digo-te coisas que vivem por dentro de nós  quando dançamos

Um brinde às otárias, totós e trouxas

Dizem que com a experiência se aprende. Pois...dizem. Cá para mim, sou seguidora teimosa do "otaritarismo", "tótóísmo", "trouxismo". Passo a, tentar, contextualizar. "Tem calma!" "Não vale a pena chateares-te!" "Ninguém muda nada!" "Deixa lá!" "Pára de refilar, reclamar!" "Sei que tens razão, mas..." "De que adianta andares com essas coisas?" ...ou seja, cala, come e vegeta...ou então, não ouças, não vejas, não comentes. É aqui que sou seguidora da "trilogia do bobo", porque, certamente com as melhores das intenções, te advertem de que não és ninguém e que, por mais que reivindiques aquilo que consideras justo, são causas perdidas, impossíveis de superar. O.K., podemos equacionar o que consideramos justo. A nossa humanidade assenta em parâmetros que, filosofica e supostamente, nos distinguem no reino animal, vulgo, conhecidos e apregoados como valores, virtudes e afins. A prior...

e vou curtindo o sol enquanto dura

acima de mim milhões de cabeças neste chão um desenho de artérias trago o corpo cheio de sinais e vou curtindo o sol enquanto dura

1840

 Lançou-se              em diagonal                                   direto.                                           Alojou-se                                                         no meu ombro                                                                                 direito.

encontro

Lembrei-me como era urgente marcar um encontro comigo mesma, naquele sítio bonito que só eu mereço, escolhido de facto, sem que nenhuma das ocorrências da vida venha interferir na minha forma de respirar sei que é irremediável o que, em certo ponto da vida,  temos para dizer a nós próprios na sua forma mais pura e bela a confissão mais exata, mas também a mais absurda e profunda. ( ligeiro desviar do remetente na carta esboço de Nuno Júdice)

para olhar e ver e para ser vista

Não tenhas receio de admitir que aprecias.  Até porque há que exercer os sentidos enquanto sentem.  E o que é bonito é para se ver.  Esta é a tua cena.  Não por ser cor de rosa nem por ter flores no seu peitoril  mas por estar a sorrir para quem passa na rua.  Não indiferente, mas com uma predisposição inata para olhar e ver e para ser vista.  Surge flagrante, de pálpebra semi cerrada.  Eficaz na forma como te alcança. 

forma orquestral

A manhã que quer ser  primavera à força no coração do inverno com seus lençóis brancos estilhaçados pelas ondas nas rochas liberta-se em furor  e, de forma orquestral, confunde-me é espuma e fogueira ao mesmo tempo Irrompo em palmas nesta varanda de onde vislumbra o meu coração todo este cenário em primeira mão.

esta mesa pode ser reino

aos corpos que se inclinam aos olhos nos olhos uma disposição, uma sede às palavras que se partilham que são pão para a nossa boca esta  mesa pode ser reino mas não é para qualquer um porque há uma exigência aqui que é tempo de qualidade ter paciência para ouvir ter coragem para estar e sentir

a certeza dos minutos programados.

Andamos presos ao hábito.  Traçamos de manhã à noite trajetos certos e fáceis,  daqueles de serem feitos de olhos fechados.  Calhou-nos em sorte um sítio, um clã, um nome e reinamos, dando ares de estabilidade,  marionetas de vidas perfeitas, impecáveis,  com horas para tudo.  Damos pouco,  almejamos quase nada  e recebemos em apatia a certeza dos minutos programados. 

bípede sem plumas

Dai-me um espaço amplo onde se concretize o trânsito. Dai-me o caos para que se crie. Um excesso de matéria estagnada onde a mudança germine.

e um sol poente; uma neve branca/ e uma água cristalina a seguir

a realidade é como é e nem sempre é grande coisa se não for a nossa capacidade de a melhorar ( o título é de Alejandro Simón Partal)