Apetece-me escrever sobre isto.
Já quase ninguém escreve â mão. E apetece-me escrever sobre este assunto por ter visto, num livro que alguém me ofereceu pelo natal, um registo escrito.
O livro foi adquirido num alfarrabista. É um livro usado e a pessoa que mo ofereceu, ofereceu-o com intenção porque sabe exatamente do que eu gosto. E de todos os pormenores que um livro usado encerra, houve um que me cativou especialmente. Na segunda página, o antigo dono deste livro deixou registada uma dedicatória e uma data. E cheguei ao ponto que pretendia chegar. E não é o teor da dedicatória nem a data (apesar de ser uma data interessante). O que mais me importa é a caligrafia. É o manuscrito.
E este é um assunto que me emociona particularmente. Para quem, como eu, gosta de escrever à mão sabe que a caligrafia diz muito sobre quem escreve e, por vezes, até faz adivinhar o estado de espírito de quem escreve mesmo sem se perceber o que escreveu. É uma marca pessoal. É um modo a quente. Uma receita caseira.
Vamos supor que eu escrevo, num qualquer papel e dando uso a um lápis tosco e mal afiado, a expressão «Estou nervosa», no momento em que, efetivamente, estou nervosa. Ao longo desse processo, deixo registada toda uma carga que as letras, porventura tremidas, denunciam. O mesmo acontece com um propositado arredondado ou rebuscado de letra num momento de euforia ou felicidade. Ora, se passar a escrito, num qualquer computador, a frase «Estou nervosa» fica apagado qualquer vestígio de nervosismo. Nunca saberás a que caligrafia pertence. É um modo a frio.
E sei, com alguma tristeza à mistura, que qualquer dia já poucos escreverão à mão. Perder-se-á a faculdade humana do manuscrito. As nossas mãos transformar-se-ão aos poucos e, por arrasto, o nosso cérebro também.
É chamada a evolução…

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