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A mostrar mensagens de 2026

vagabundos

só que a voz e, sobretudo,  a cabeça e os pés, estão em trabalho temporário optaram por atalhos e artifícios vários anda errante, mas ileso, sem pensar muito em itinerários 

por hoje, já chega

Hoje, apeteceu-me uma daquelas fotos instagramáveis. A chamada selfie para comemorar a solidão dos nossos tempos. Podia ter sido uma fotografia a cores, mas achei que o preto e branco é muito mais elegante e permite esconder as (poucas) rugas que se desenham nalguns pontos do rosto. Poderia ter tirado os óculos, mas pensei que assim ficava mais cool, vaporizando-vos com um certo cheiro a verão. Sei que poderia ser um retrato de corpo inteiro, mas isso obrigaria a uma ginástica laboriosa, colocando o dito telemóvel no ponto exato, no ângulo certo de forma a corrigir os pontos fracos e enaltecer os pontos fortes e não há pachorra nem ciência para tais cálculos. Sei que podia ter jogado uma última cartada como a de um cenário idílico, desses de criar inveja miudinha a alguns… mas pensei que...  por hoje, já chega.

Assento portátil e dobrável projetado para uso em ambientes leves

Sou a que sabe que é primavera quando sou chamada a entrar em cena. Sou ali colocada num ponto - chave e sou convidada a ver a marcha do mundo. Sou dada à luz e exposta a perfumes.  Sou farol, sou plateia, sou posto de controlo. Ganho braços e pernas e ouço os sons de tudo.  Sou assento. Sou centro de paz. Tenho-a por minha companhia  - aí vem ela, aí vem ela, só ela me cabe! Vem como água que se infiltra. Vem como hera que se enlaça.  Vem com alegria. E instala-se.

esta mão que escreve e sente vai dizer Poesia/ como se fosse alimento que sacia e deixa semente

Tem sido local de encontro. E há um grupo de pessoas que naturalmente se procuram em nome da Poesia. Todas as quartas feiras, às vezes sábados, há um caminho certo. Leva-se connosco a palavra, aprende-se e escolhe-se a forma de a dizer. A palavra aproxima e ganha corpo nas vozes que a sentem e a deposita em cada movimento. E aos poucos, vai surgindo muito mais que o texto. Surge a amizade entre aqueles que a vivem. Surge a cumplicidade e a partilha. O palco ganha luz e som. Surge a magia entre aqueles que a partilham e aqueles que a acolhem. (um agradecimento à Biblioteca Municipal de Matosinhos, ao Exemplo Extremo, à Ana Celeste Ferreira, ao Isaque Ferreira, ao Alfredo, à Isabel, ao Jorge, à Marlene, à Eugénia, ao Pedro, ao Laboratório Boca em Flor, à Carla Tavares que, ontem, esteve magnífica, ao Rui Coutinho, com a sua voz retumbante…obrigada pelos momentos mágicos que me têm proporcionado e pela Poesia dos dias)

just a perfect day

digo-te coisas novas com a língua coisas que voam e são vermelhas ou azuis ou quentes ou com as mãos que te apanham em branco e com espanto digo-te coisas que vivem por dentro de nós  quando dançamos

Um brinde às otárias, totós e trouxas

Dizem que com a experiência se aprende. Pois...dizem. Cá para mim, sou seguidora teimosa do "otaritarismo", "tótóísmo", "trouxismo". Passo a, tentar, contextualizar. "Tem calma!" "Não vale a pena chateares-te!" "Ninguém muda nada!" "Deixa lá!" "Pára de refilar, reclamar!" "Sei que tens razão, mas..." "De que adianta andares com essas coisas?" ...ou seja, cala, come e vegeta...ou então, não ouças, não vejas, não comentes. É aqui que sou seguidora da "trilogia do bobo", porque, certamente com as melhores das intenções, te advertem de que não és ninguém e que, por mais que reivindiques aquilo que consideras justo, são causas perdidas, impossíveis de superar. O.K., podemos equacionar o que consideramos justo. A nossa humanidade assenta em parâmetros que, filosofica e supostamente, nos distinguem no reino animal, vulgo, conhecidos e apregoados como valores, virtudes e afins. A prior...

e vou curtindo o sol enquanto dura

acima de mim milhões de cabeças neste chão um desenho de artérias trago o corpo cheio de sinais e vou curtindo o sol enquanto dura

1840

 Lançou-se              em diagonal                                   direto.                                           Alojou-se                                                         no meu ombro                                                                                 direito.

encontro

Lembrei-me como era urgente marcar um encontro comigo mesma, naquele sítio bonito que só eu mereço, escolhido de facto, sem que nenhuma das ocorrências da vida venha interferir na minha forma de respirar sei que é irremediável o que, em certo ponto da vida,  temos para dizer a nós próprios na sua forma mais pura e bela a confissão mais exata, mas também a mais absurda e profunda. ( ligeiro desviar do remetente na carta esboço de Nuno Júdice)

para olhar e ver e para ser vista

Não tenhas receio de admitir que aprecias.  Até porque há que exercer os sentidos enquanto sentem.  E o que é bonito é para se ver.  Esta é a tua cena.  Não por ser cor de rosa nem por ter flores no seu peitoril  mas por estar a sorrir para quem passa na rua.  Não indiferente, mas com uma predisposição inata para olhar e ver e para ser vista.  Surge flagrante, de pálpebra semi cerrada.  Eficaz na forma como te alcança. 

forma orquestral

A manhã que quer ser  primavera à força no coração do inverno com seus lençóis brancos estilhaçados pelas ondas nas rochas liberta-se em furor  e, de forma orquestral, confunde-me é espuma e fogueira ao mesmo tempo Irrompo em palmas nesta varanda de onde vislumbra o meu coração todo este cenário em primeira mão.

esta mesa pode ser reino

aos corpos que se inclinam aos olhos nos olhos uma disposição, uma sede às palavras que se partilham que são pão para a nossa boca esta  mesa pode ser reino mas não é para qualquer um porque há uma exigência aqui que é tempo de qualidade ter paciência para ouvir ter coragem para estar e sentir

a certeza dos minutos programados.

Andamos presos ao hábito.  Traçamos de manhã à noite trajetos certos e fáceis,  daqueles de serem feitos de olhos fechados.  Calhou-nos em sorte um sítio, um clã, um nome e reinamos, dando ares de estabilidade,  marionetas de vidas perfeitas, impecáveis,  com horas para tudo.  Damos pouco,  almejamos quase nada  e recebemos em apatia a certeza dos minutos programados. 

bípede sem plumas

Dai-me um espaço amplo onde se concretize o trânsito. Dai-me o caos para que se crie. Um excesso de matéria estagnada onde a mudança germine.

e um sol poente; uma neve branca/ e uma água cristalina a seguir

a realidade é como é e nem sempre é grande coisa se não for a nossa capacidade de a melhorar ( o título é de Alejandro Simón Partal)

três de uma tarde molhada

esmagar uma erva entre as mãos faz subir um cheiro encantado experimenta: ervas de cheiro, um cuidado o tomilho, o alecrim, o manjericão a cidreira, a hortelã, a lavanda nem sei se é tacto se visão  se de olfacto se trata se sabor ou isto tudo misturado

horárias, intensas ou vagas

horárias, intensas ou vagas dadas as razões mais difusas um susto que nos afasta o sentido o que não se sente ou se sente demasiado um lusco-fusco por vezes ou claridade o útil tão próximo às vezes quase nada são as razões tantas que nos encobrem edificações interiores que vão martelando matéria estanque  - e no entanto –  correm nas veias, macerando-nos  a carne

não é este o mar que eu canto oh! como está triste o areal

já foste leito, divã, berço de embalar, lençol de seda príncipe no reino das manhãs, convite à entrada já foste palco de serenidade espalhando maresia uma bebedeira de azul , luz na minha pele mas, hoje, encontrei-te num enjoo brutal cuspiste, abriste a goela,  verteste o vómito desenfreado escancaraste neste areal todas as provas do meu, do nosso crime que já não consegues mais esconder, estás farto de sofrer

(cumprindo a lei da inevitabilidade)

Da vidraça, pensava eu, que ambos assistíamos ao aleatório deslizar de umas quantas gotículas. (cumprindo a lei da gravidade) Foi então que disseste: - Tens uns olhos…! Nessa hora percebi que enquanto os teus fixavam os meus, andavam os meus alheados.  Foi assim que os nossos olhos entraram em rota de colisão e desenhamos carreiros incertos pela janela abaixo. (cumprindo a lei da inevitabilidade) Estava o chá quente e o colo. È que nem sempre os dias são tristes. Às vezes, são só frios à espera de algo que os aqueça.

e, hoje, no entanto, amanheceram pássaros trinando…

andam pardacentos os dias são cavalos indomáveis os rios choram as árvores e tudo à volta e, hoje, no  entanto,  amanheceram pássaros trinando… subitamente, o riso, a alegria dos moços brincando...

escuta as vozes longínquas de crianças, o ruído de um motor que passa na estrada, o silêncio que isso envolve e que fica

são nossos todos os lugares quando sentidos nem que seja breve instante um fundo respirar de chão um leve olhar de ave como quem diz «também faço parte» basta  corpo a atravessar um coração a pulsar para que o espaço leve com a tua assinatura

E porque é que não nos podemos movimentar no Tempo como nos movimentamos nas outras dimensões do Espaço?

eu mais à frente já não tanto passado mas presente com visões de esperança acolhendo quem se lembra sempre esta é a única viagem possível no tempo ( o título é um excerto do livro « a máquina do tempo» de H.G. Wells)

Com arriscada atenção aspiramos à ditosa notícia de uma perfeição especialista em fracassos

a que era quem mal sabia contar a que confundia patos com perdizes do mar a que andava sempre ao deus dará (o título é de Ana Hatherly)

ponto exato

não a dispas por completo deixa-lhe um leve rasto naquele ponto exato  onde todos recomeçam a pensar  que a única folha não varrida pelo vento é vermelha: seja  resquício de natal seja anseio estival

Por isso cada inverno, a magnólia espera que a flor aconteça.

A infância só termina quando aprendemos que a morte se alimenta da vida. E recomeça quando descobrimos que é afinal a vida  que se alimenta da morte. Por isso cada inverno, a magnólia espera que a flor aconteça. (José Rui Teixeira)

olhar cada coisa, sondar-lhe as naturezas abissais

Quero falar-vos sobre a vontade de viver.  Daquele abrir de braços pela manhã, um espreguiçar exagerado, um esfregar de ramelas, um abrir de janela para ver o tempo que se faz.  Daquele entrar para debaixo de água seja da chuva de dentro ou da chuva de lá de fora e cobrirmo-nos do cheiro a café torrado que invade a nossa rua. E sentir um pé e outro pé na meia quente e que traçam caminho. Quase sempre o mesmo, mas que o olhar regula como bem quer.  E a música? Quero falar-vos da música. A que dita este bem querer, é banda sonora, é energia que combina com os  batimentos cardíacos, é alegria, é bem estar, ajuda-nos a respirar.  Quero falar-vos sobre a vontade de fazer coisas novas, arrumar, mudar a posição de tudo, estudar a melhor forma de fazer diferente, de conhecer outros lugares e suas gentes, de saber falar pausadamente e com consciência de não querermos ser mais do que aquilo que somos.  Quero falar-vos da amizade. E do encanto. E da gratidão de mais u...

há quem tenha

quem me dera ter tido a sorte aquele tipo de sorte que espanta a gente e nos põe a pensar na sorte que se teve  não como quem escapou por um triz nem como quem não merecia ser tão feliz mas aquele tipo de sorte em cheio não pela metade, mas por inteiro

o mundo inteiro do avesso

Eu sou. Eu posso. Eu mando. Eu quero. Eu sei. Eu faço. Eu tenho. Eu assim tão encerrado num ponto final, sem trânsito. Tão só este pronome.  Tão sozinho que se esqueceu do verdadeiro nome próprio e cuja única forma de disfarçar a sua incapacidade  é rodear-se de verbos assim tão imperiosos.  Engole-se de si próprio e do sangue de todos. E engrandece.  Nem tu nem ele ou ela.  Nem sequer vós ou eles, todos juntos (o mundo inteiro) serão já suficientes para o deter  neste percurso avassalador.  

Dizem que o melhor é ir tentando como se já não se precisasse de alcançar.

Dizem que não é o chegar, mas é o até chegar. Dizem que o mais emocionante é o ir construindo como se nunca acabasse. Dizem que o melhor é ir tentando como se já não se precisasse de alcançar. Dizem que a viagem é. Um som de fundo, do mais fundo que em nós nos leva a ir e descobrir que, apesar de já quase tudo ter sido descoberto, há sempre mais uma pequeníssima revelação. E já que não temos perspetiva de um futuro ameno que seja o presente a fazer valer umas quantas evidências do é agora o que temos. E o que temos é este quase nada ainda por descobrir que nos leva a ir a algum lado ou a alguém. 

é chamada a evolução

Apetece-me escrever sobre isto.  Já quase ninguém escreve â mão. E apetece-me escrever sobre este assunto por ter visto, num livro que alguém me ofereceu pelo natal, um registo escrito.  O livro foi adquirido num alfarrabista. É um livro usado e a pessoa que mo ofereceu, ofereceu-o com intenção porque sabe exatamente do que eu gosto. E de todos os pormenores que um livro usado encerra, houve um que me cativou especialmente. Na segunda página, o antigo dono deste livro deixou registada uma dedicatória e uma data. E cheguei ao ponto que pretendia chegar. E não é o teor da dedicatória nem a data (apesar de ser uma data interessante). O que mais me importa é a caligrafia. É o manuscrito.  E este é um assunto que me emociona particularmente. Para quem, como eu, gosta de escrever à mão sabe que a caligrafia diz muito sobre quem escreve e, por vezes, até faz adivinhar o estado de espírito de quem escreve mesmo sem se perceber o que escreveu. É uma marca pessoal. É um modo a quen...

a infância de Ivan

Um filme bom que alia uma profunda narrativa a imagens poderosas, transformando - o numa verdadeira obra de arte. Para começar, e o mais desafiante, é a profundidade da narrativa que se mede pela exigência de uma pesquisa para tentar perceber todo o contexto das sequências e o porquê de determinados pormenores que se nos apresentam. O ponto de partida é o conto «Ivan» de Vladimir Bogomolov na fabulosa perspetiva do diretor cinematográfico Andrei Tarkovski. É um filme a preto e branco de 1962 que tem como ponto central a figura de uma criança. O ponto forte deste filme é o foco no olhar de Ivan que se vê forçado, vítima das desgraças impostas pela segunda guerra mundial, a transformar-se num espião devidamente reconhecido pelo exército soviético. E é a partir deste pormenor que surge toda uma alternância de imagens e planos fabulosos que nos vão mostrando imagens de um passado de paz, no qual a criança era simplesmente uma criança com futuro, e um presente de guerra, no qual a criança é...