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para olhar e ver e para ser vista

Não tenhas receio de admitir que aprecias.  Até porque há que exercer os sentidos enquanto sentem.  E o que é bonito é para se ver.  Esta é a tua cena.  Não por ser cor de rosa nem por ter flores no seu peitoril  mas por estar a sorrir para quem passa na rua.  Não indiferente, mas com uma predisposição inata para olhar e ver e para ser vista.  Surge flagrante, de pálpebra semi cerrada.  Eficaz na forma como te alcança. 

forma orquestral

A manhã que quer ser  primavera à força no coração do inverno com seus lençóis brancos estilhaçados pelas ondas nas rochas liberta-se em furor  e, de forma orquestral, confunde-me é espuma e fogueira ao mesmo tempo Irrompo em palmas nesta varanda de onde vislumbra o meu coração todo este cenário em primeira mão.

esta mesa pode ser reino

aos corpos que se inclinam aos olhos nos olhos uma disposição, uma sede às palavras que se partilham que são pão para a nossa boca esta  mesa pode ser reino mas não é para qualquer um porque há uma exigência aqui que é tempo de qualidade ter paciência para ouvir ter coragem para estar e sentir

a certeza dos minutos programados.

Andamos presos ao hábito.  Traçamos de manhã à noite trajetos certos e fáceis,  daqueles de serem feitos de olhos fechados.  Calhou-nos em sorte um sítio, um clã, um nome e reinamos, dando ares de estabilidade,  marionetas de vidas perfeitas, impecáveis,  com horas para tudo.  Damos pouco,  almejamos quase nada  e recebemos em apatia a certeza dos minutos programados. 

bípede sem plumas

Dai-me um espaço amplo onde se concretize o trânsito. Dai-me o caos para que se crie. Um excesso de matéria estagnada onde a mudança germine.

e um sol poente; uma neve branca/ e uma água cristalina a seguir

a realidade é como é e nem sempre é grande coisa se não for a nossa capacidade de a melhorar ( o título é de Alejandro Simón Partal)

três de uma tarde molhada

esmagar uma erva entre as mãos faz subir um cheiro encantado experimenta: ervas de cheiro, um cuidado o tomilho, o alecrim, o manjericão a cidreira, a hortelã, a lavanda nem sei se é tacto se visão  se de olfacto se trata se sabor ou isto tudo misturado

horárias, intensas ou vagas

horárias, intensas ou vagas dadas as razões mais difusas um susto que nos afasta o sentido o que não se sente ou se sente demasiado um lusco-fusco por vezes ou claridade o útil tão próximo às vezes quase nada são as razões tantas que nos encobrem edificações interiores que vão martelando matéria estanque  - e no entanto –  correm nas veias, macerando-nos  a carne

não é este o mar que eu canto oh! como está triste o areal

já foste leito, divã, berço de embalar, lençol de seda príncipe no reino das manhãs, convite à entrada já foste palco de serenidade espalhando maresia uma bebedeira de azul , luz na minha pele mas, hoje, encontrei-te num enjoo brutal cuspiste, abriste a goela,  verteste o vómito desenfreado escancaraste neste areal todas as provas do meu, do nosso crime que já não consegues mais esconder, estás farto de sofrer