Só a palavra assusta. Escrever a palavra «cultura» afasta. É enfadonha. Não devia ser, mas é. Ainda acredito que não para a maioria, mas para muitos. Se se colocar a palavra «cultura» perto da palavra «aluno», parece ficar, à partida, o caso mal parado. Ou não…
Vejamos.
Por exemplo, apresentemos a seguinte situação. Naquela manhã, entramos num pequeno auditório com lotação para cerca de 230 pessoas sentadas cujo lema é «Teatro para Todos» e cuja premissa é «Com pouco, fazer muito.». Parece ser um princípio nobre e modesto, mas, tendo em conta o pouco valor que o nosso país dá à cultura, é um princípio arriscado, apesar de corajoso. Um esforço gigante de alguns teimosos que cismam em levar o barco a bom porto. Ora, como todos sabem, o teatro não vive, sobrevive. A maioria das famílias não vai ao teatro. Vai ao futebol, vai ao shopping e, com sorte, vai ao cinema. Não vai ao teatro. Não aguenta. Não tem paciência. Não gosta. Não sabe se gosta. Tem receio de não perceber. Não faz esforço para tentar perceber. E é assim que a maioria das famílias priva as crianças e jovens de um bem que se chama Cultura. O teatro não é para todos, é para quem sabe escolher.
Portanto, naquela manhã, os passos de entrada naquele pequeno auditório, por parte de quase todos (neste caso, alunos de 7º ano de escolaridade, 12 anos de vida), pesavam ao sabor da falta de entusiasmo graças a todo um contexto que os desabituou destas andanças. Por outro lado, ficarem sentados durante uma hora e meia, com os telemóveis desligados e sem falar é muito mais do que um castigo. A escola serve para isto; impor «chatices». Dar cultura.
(Apagam-se as luzes. Abre o pano. Começa o espectáculo.)
E o palco dos pequenos auditórios deste país, como este nesta manhã, estava despido. Não há verbas para grandes cenários nem guarda- roupas estonteantes nem sequer para coreógrafos ou encenadores de luxo. Um biombo. Algumas caixas. Quatro jovens atores em palco. Uma luz. Tudo a fazer jus à premissa «Com pouco, fazer muito.». E mal começa o espectáculo, as personagens vão crescendo em palco. Saem da sua boca palavras. E o que sai é texto literário com qualidade. O palco enche-se do que se ouve e do que se sente, do que se percebe. Provoca risos e revoltas. É divertido. Há as personagens favoritas e as detestáveis. Há uma mensagem que vai passando e um texto que se vai explorando com o cuidado de quem o trabalha. E tudo fica mais fácil. E são cativados.
(Palmas)
Saem leves e felizes. Fica a vontade de regressar e, quem sabe, passar palavra para pedir lá em casa para se ir ao Teatro que é para todos os que quiserem. Afinal, não é a palavra que assusta, é a ideia que se cria dela, porque Cultura é um modo de ser e estar na vida, de encarar a vida com espírito crítico e liberdade de pensamento. É fomentar a criatividade. E isto, sim, assusta. Formar crianças com espírito crítico e gosto pela cultura é demasiado para o país que temos. As pequenas companhias de teatro que trabalham com os públicos escolares lá continuam, com qualidade a tentar levar o barco a bom porto sob a premissa «Fazer muito, com muito pouco.». E este não é lema modesto ou arriscado, é lema realista.
https://etcteatro.pt/
https://plebeusavintenses.pt/

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