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Dizem que o melhor é ir tentando como se já não se precisasse de alcançar.

Dizem que não é o chegar, mas é o até chegar. Dizem que o mais emocionante é o ir construindo como se nunca acabasse. Dizem que o melhor é ir tentando como se já não se precisasse de alcançar. Dizem que a viagem é. Um som de fundo, do mais fundo que em nós nos leva a ir e descobrir que, apesar de já quase tudo ter sido descoberto, há sempre mais uma pequeníssima revelação. E já que não temos perspetiva de um futuro ameno que seja o presente a fazer valer umas quantas evidências do é agora o que temos. E o que temos é este quase nada ainda por descobrir que nos leva a ir a algum lado ou a alguém. 

é chamada a evolução

Apetece-me escrever sobre isto.  Já quase ninguém escreve â mão. E apetece-me escrever sobre este assunto por ter visto, num livro que alguém me ofereceu pelo natal, um registo escrito.  O livro foi adquirido num alfarrabista. É um livro usado e a pessoa que mo ofereceu, ofereceu-o com intenção porque sabe exatamente do que eu gosto. E de todos os pormenores que um livro usado encerra, houve um que me cativou especialmente. Na segunda página, o antigo dono deste livro deixou registada uma dedicatória e uma data. E cheguei ao ponto que pretendia chegar. E não é o teor da dedicatória nem a data (apesar de ser uma data interessante). O que mais me importa é a caligrafia. É o manuscrito.  E este é um assunto que me emociona particularmente. Para quem, como eu, gosta de escrever à mão sabe que a caligrafia diz muito sobre quem escreve e, por vezes, até faz adivinhar o estado de espírito de quem escreve mesmo sem se perceber o que escreveu. É uma marca pessoal. É um modo a quen...

a infância de Ivan

Um filme bom que alia uma profunda narrativa a imagens poderosas, transformando - o numa verdadeira obra de arte. Para começar, e o mais desafiante, é a profundidade da narrativa que se mede pela exigência de uma pesquisa para tentar perceber todo o contexto das sequências e o porquê de determinados pormenores que se nos apresentam. O ponto de partida é o conto «Ivan» de Vladimir Bogomolov na fabulosa perspetiva do diretor cinematográfico Andrei Tarkovski. É um filme a preto e branco de 1962 que tem como ponto central a figura de uma criança. O ponto forte deste filme é o foco no olhar de Ivan que se vê forçado, vítima das desgraças impostas pela segunda guerra mundial, a transformar-se num espião devidamente reconhecido pelo exército soviético. E é a partir deste pormenor que surge toda uma alternância de imagens e planos fabulosos que nos vão mostrando imagens de um passado de paz, no qual a criança era simplesmente uma criança com futuro, e um presente de guerra, no qual a criança é...

E os passos que deres,/ Nesse caminho duro/ Do futuro/ Dá-os em liberdade.

Aqui está a tradicional imagem do caminho.  De uma linha só, não asfaltado.  Divertidamente serpenteado.  Um caminho sem indicações precisas da direção a tomar.  Não se sabe ao que se vai,  sabe que se vai.  Qualquer caminho assim merece a devida homenagem. ( o título é de Miguel Torga)

mas saiu-me caro o roubo de Prometeu

Quem me dera andar por entre ruas admirando as montras só por as ver ficar-me pelo brilho das coisas concretas e não o sentido abrupto dos objetos Quem me dera andar por entre as gentes ouvindo a música, escolhendo presentes absorver apenas a  melodia, sem legendas, mas saiu-me caro o roubo de Prometeu.

except that the goal

  falls short of the reach

Nostalgia. Palavra bonita, algo triste, mas leve.

O tempo de natal é, quer se queira quer não, tempo de recordações. Há uns pozinhos no ar. E, neste caso, foi nostalgia. Palavra bonita, algo triste, mas leve. Provoca sorriso tímido e faz chegar algo doce e reconfortante.  Assim foi, ontem, num cinema. Por acaso foi num cinema bonito e em boa companhia. Foi um passar de testemunho. E recordei o meu pai que me costumava levar ao cinema. E levei a minha filha ao cinema. E recordei o meu pai que me oferecia livros que é, de resto, a melhor prenda que nos podem dar. Um desses livros, que faz parte do meu imaginário infantil, é "As meninas exemplares". De certeza que ele próprio o leu, mas mal ele sabia que haveria de me apaixonar por Sofia, a personagem mais intrincada da história, mais inquieta, mais criativa e cheia de vida. E o filme que fomos ver chama-se "As meninas exemplares" de João Botelho. E ele próprio ali estava, no meio dos espetadores, para falar connosco. Falou da vida, dos tempos modernos, do cinema que ...

é necessário que se abram, aqui ou ali, poços de luz

só quero estes passos ao som da voz que ouço e emprestarei a estas mãos a contundência necessária para viver com a novidade ( o título é de Christian Bobin)

O mundo da música é misterioso

O mundo da música é misterioso e o das folhas também. O dos campos coloridos. Principalmente quando o chão nos canta os passos. Faziam barulho os meus passos. E foi tal o chinfrim que tu me ouviste e respondeste. Eu pouco sei de anjos ou música. Mas por vezes, aparecem-me sob a forma de ramos esgaçados em tarde ensolarada. E as tardes de luz encerram um mistério e uma música deliciosos.